Distopia Literaria - Submissão
Olá, eu sou Natasha Carvalho e vou falar sobre a obra Submissão, que foi escrita pelo autor Michel Houellebecq em 2015 e pertence ao gênero literário distopia literária.
O romance é muito engraçado, o que nos tempos de hoje podemos dizer que é um fato raro. Por que ele é engraçado? É um humor autodepreciativo. O livro é bem-sucedido porque incomoda, porque cria um mal-estar, porque obriga à reflexão. Nas primeiras páginas já podemos sentir o seu humor, O livro “Submissão” foi publicado na França no mesmo dia em que assassinos islâmicos fanáticos dizimaram o conselho editorial da revista satírica francesa Charlie Hebdo. O superaquecido debate sobre o fundamentalismo islâmico e o terror produzido na Europa e em outros lugares tornaram-se indissociáveis da história distópica de Houellebecq, que se passa em um futuro nem tão longe assim na França, em que um presidente muçulmano eleito desencadeia grandes mudanças na sociedade, que passar a ficar longe dos ideais ocidentais. Este livro, que tornou-se um “case literário”, marca uma coincidência excepcional em que a política e a arte se tocam simultaneamente. Orwell, com menos humor, imaginou “1984”, com elementos stalinistas. Huxley, em seu livro “Admirável Mundo Novo”, levou a lógica de uma sociedade hedonista e científica a um tempo mais distante, um lugar onde o prazer seria total e a paixão, desconhecida. Houellebecq nos aponta para a islamização na França por meios legítimos, ou seja, através de eleições.
A abordagem desse tema polêmico (o Islã) é permeada de humor ácido. O ritmo das frases do personagem central, François, é encantatório no seu desgosto pela vida, e a comicidade do autor é irresistivelmente sombria e melancólica. Ele escolhe a sátira para promover a causa da iluminação. É a iluminação de pessimismo, não do otimismo.
Vamos ao livro? O narrador, François, é um acadêmico de meia-idade, e o romance começa com uma reflexão sobre o escritor Joris-Karl Huysmans (1848-1907), objeto de sua tese de doutorado. Huysmans é contemporâneo de Zola e Mallarmé, cujas crenças variaram entre o niilismo, satanismo e catolicismo como sendo o objeto de sua tese de doutorado.
Especificamente no livro “Às avessas”, de Huysmans, o personagem Des Esseintes, um decadente, rico, frívolo, alheio aos problemas do mundo, vê a decadência de sua família ligada à nobreza como um sintoma da decadência da civilização francesa sob a modernidade implacável. Houellebecq faz o seu personagem François estabelecer uma relação interessante entre o século XIX, através da vida e obra de Huysmans, e o nosso tempo.
Ao expor a decadência da França através dos seus políticos pobres de ideias e ideais, da despolitização das massas, do fim de todas as ideologias, da agonia dos partidos políticos, da industrialização, da criminalidade e dos meios de informação sob suspeita, vemos um cenário não tão distante da realidade, e fica difícil dizer que Houellebecq esteja errado em seu diagnóstico.Em um cenário em que satiriza e ao mesmo tempo joga com possiblidades nem tão impossíveis assim, Houellebeccq visualiza uma conjuntura política polarizada entre a Frente nacional (partido da extrema direita de Marie Le Pen) e o recém-formado partido Fraternidade mulçumana, que visa representar os mulçumanos franceses. A Fraternidade Mulçumana é liderada por Mohamed Ben Abbes, um homem afável, não radical e que vence os socialistas e a ala de centro-direita no primeiro turno das eleições por uma pequena margem de pontos. No entanto, para conseguir a vitória no segundo turno das eleições terá que negociar com os partidos que não conseguiram se eleger para garantir a hegemonia.
O presidente Mohamed Bem Abbes propõe uma aliança com todos os partidos, ou seja, com os socialistas e o partido de centro-direita, para barrar a Frente Nacional. E como se dará essa aliança? Simples, querem saber? Infelizmente vou ter que parar por aqui.
“Submissão” é um livro islamofóbico? Não é. É uma sátira ao Iluminismo Francês, ao secularismo e à decadência da França. Houellebecq não tem os poderes de Cassandra cujas previsões pessimistas realizavam-se à luz dos fatos.
Mas convenhamos que, para as pessoas que viveram e prosperam em determinado sistema social, imaginar o ponto de vista dos que nunca tendo tido nada a esperar desse sistema, encaram sua destruição sem nenhum terror especial (trecho tirado do livro “Submissão”). Isso é um fato a se pensar.
As premonições desse “enfant terrible” francês podem parecer um soco na cara do leitor, mas tudo vai depender do olhar de cada um. Afinal, “A ideia assombrosa e simples, jamais expressada antes com essa força, de que o auge da felicidade humana reside na submissão mais absoluta”
Fonte: https://www.bonslivrosparaler.com.br/livros/resenhas/submissao/4515
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